sexta-feira, julho 31, 2015

A minha casa é o Templo das Horas
onde o tempo flui, sem pressa nem demoras.

E eu serei o fantasma que a assombra
e onde a tocha dá a luz eu sou a sombra.

E a voz do tempo fala sem qualquer sotaque,
e eu escuto e só oiço "tique taque, tique taque".

Como no respirar, passou por mim a inspiração
que quando se expira nos deixa sem vazão.

No intervalo seguinte fica-se com falta de ar
e o relógio bate, único som no lugar.

Privado de oxigénio, sobra escrever uma rima
que cai como uma uva que sobrou da vindima.

Como o sobrevivente de um destruído hemisfério,
como o morto que passeia à noite no cemitério.

Onde o único vinho e a brisa que perpassa
é a noção de a não haver e de estar vazia a taça.

Deixo a sede vã soar, envolto no ar bafio,
mas do novelo do silêncio apenas puxo mais um fio.

Como uma gata sem esperança que absorta
finge brincar para esquecer fechada a porta.

Deste Templo a única estátua de pedra é a arte,
do céu carregado de breu o ténue brilho de Marte.

Vã, fútil, inútil, mas ainda assim o estandarte
de um pelotão caído, de um coração que se parte.

quarta-feira, julho 22, 2015

Subindo, almejando, na passada clandestina entre as árvores serranas, procuro o mais recôndito miradouro natural no qual melhor sentir a vista nocturna da natureza virgem por baixo do meu olhar sequioso de paisagem escarpada e selvagem. Aonde o vento justifique com a sua intensidade a pele adormecida que me envolve, aonde ele como lâminas reveladoras me entrecorte o conforto dos cabelos dependurados quais frutos por colher, aonde ele me traga ao olfacto citadino e poluto a frescura de mil fragrâncias do mundo imenso, da sua maresia, da pólvora das guerras, dos côcos das palmeiras dos oásis no deserto. Por isso ascendo. Haja trilho ou não, ascendo. Procuro na longitude o que não está na latitude. Não quero saber de coordenadas. Estar perdido é uma ilusão. Sei que estou no planeta Terra, e por isso ascendo. Sem ilusões, sem pretensões, que não caminhar, e caminhar, deixando para trás as pegadas mil, decalcando a ininterrupta marca da minha demanda, visível, mais saliente ou menos, mais inteligível ou menos. Amigos as verão, inimigos as verão, uns interpretarão de uma forma, outros como lhes convier. Subo, tendencialmente ignorante dos barulhos das aves de rapina e dos lobos. No durante, procuro entender e descrevê-la com os meus passos toda a realidade que me circunda, e também a que me está inscrita. Como o Galileu, que analisou toda a nossa circunferência, e que quiseram crucificar por isso. Como os filósofos, que observam sempre, e analisam sempre, indiferentes aos limites, pois não os ultrapassam na sua mente puramente constantante. Como os artistas, com todo o exagero que a arte acarreta. Subo, displicente em relação aos perigos. Subo, fiel aos instintos que prevalecem, maiores, intocáveis, como as árvores seculares que rodeiam este abrigo, exposto, mas paradoxalmente um abrigo. Abrigo da sociedade, das notícias, da política, das telenovelas, dos dramas, e de outras subtilezas... De tudo o que existe no dia-a-dia comum. Por isso prossigo. Sem querer mais do que as folhas caídas dos ciprestes em meu torno , sem mais querer do que a minha própria mónada verde. Sou daqueles gajos que estacionam sem ocupar dois lugares. Estaciono no meu, e quem quiser que estacione onde quiser. Se quiser estacionar ao pé do meu, tem lá espaço. Só isso. Fora isso, é sempre a seguir caminho, sem querer saber da distância nem das pegadas nem dos arredores. Estou bem neste caminho incerto. Estarei bem, onde quer que ele vá dar. É isto a liberdade. É isto o mundo, para lá do lugar-comum que é a povoação regrada. É isto a vida que há escondida, algures dentro da vida. Sou isto. Nada mais. Mas também nada menos.

sábado, julho 18, 2015

De janela entreaberta observo a cidade e a aragem.
Cai a noite, e o vento sopra uma projecção de viagem.

As paredes desintegram-se e com elas vai-se o calor.
Alguém liga o micro-ondas e ele dá o som do motor.

Vou contra um camião fantasma que me atropela a alma.
Perco as rédeas do volante e lá se vai toda a calma.

Estava só no meu país mas fui parar a uma floresta.
Da estrada um trilho cerrado, até que não há uma fresta.

Os mochos piam a direcção mas não consigo entendê-la.
A lua ilumina um pombo a ir louco contra a janela.

Oiço sons de patas ferozes que rondam os arredores.
Entro em pânico, mas não consigo alcançar os estores.

Tento fugir mas em vão, músculos aterrorizados.
Tento fechar os olhos, mas eles estão esbugalhados.

Vim parar a um sítio místico, os sentidos em dormência.
Mas não consigo adormecer para sair desta demência.

Até que se ouve uma música e aos poucos nasce o dia.
Dissipam-se os arbustos e os passos e a azia.

Embalado pelas notas dou por mim de volta a casa.
De regresso à paz do lar, a normalidade extravasa.

Suspiro... mas não sei se aliviado ou nostálgico.
Não sei se pertenço aqui ou àquele lugar mágico...

Olho enfim para a janela e para a rua pequena.
Tudo está conforme mas no parapeito uma pena.

Penso no pombo e há uma questão que em mim ecoo.
Aonde é que acaba a asa, aonde é que começa o vôo?...

quarta-feira, julho 15, 2015

De dia 12:

Perdida no mais alto mar
ao sabor da ondulação
deriva uma só embarcação
sem destino ter, nem lugar.

O seu nome é Nau Trotineta
e ao comando seu lá vou eu.
Pedalo sempre rumo ao céu,
sempre evitando a linha recta.

Deixei para trás minh'aldeia,
só que por ter alma de artista
do trajecto perdi a pista
fascinado p'la lua cheia.

E agora? Mas que grande bosta!
Pouco falta para estar morto...
Há dias que não se vê porto.
É que nem sequer uma costa!

Acabaram-se os mantimentos,
sobrevivo de água do mar,
mas isto não pode durar,
que quilos já perdi duzentos!

Encostado à proa, a esperança
perdeu-se no rasto da popa.
Sabia mesmo bem uma garoupa...
Mas nada pr'acalmar a pança.

Enfim. Uma vez conformado
co'o final da minha história,
à cabeça vem-me a memória
de momentos do meu passado.

As batalhas que combati!
Inimigos que degolei!
Víuvas que a seguir violei!
Condecorações que obti'!

Das lembranças o maior mote
são as gajas que já papei!
Oh, e como rejubilei
se deixavam ir ao pacote!

Fecho os olhos e espero o fim.
Brado meu adeus em voz alta.
Um som porém me sobressalta.
Abro os olhos... 'stou sem latim!

Alguém se aproxima... a voar!
Será uma espécie de anjo?
Será da morte algum arcanjo?
Ou estarei eu a alucinar??

Mas não... é humano este ser!
E está a vir pr'aqui! Pequenina,
a cara tem-na de menina
mas o corpo, esse é de mulher.

Só consigo exclamar um: "Hã?!"
Até que poisa no convés.
Esfrego os olhos, conto até dez...
"Olá. Chamo-me Patty Pan."

Dou por mim todo abananado,
tenho em turbilhão os neurónios.
Acho que se fosse unicórnios
não ficava tão admirado!

"Então! Manda a educação
que te apresentes, como eu fiz!"
... "Desculpa. Sou o capitão RiS.
Mas que inesp'rada aparição!"

"Bem, vinha a passar e achei estranho.
Estás longe de tudo e sozinho."
"Pois é... Sem comida nem vinho!
Nem água para tomar banho..."

"! Que bom que te vi nesse caso...
Tem calma. Nada está perdido.
Já basta o que tu tens sofrido.
Vou-te pôr em Burkina Faso!"

"Ena!!! És a minha heroína!
Tiraste-me cá de um sarilho...
Queres que te faça algum filho???
Preferes encomendas da China?"

"Não, não... não preciso, obrigada.
Gosto de fazer boas acções.
Porém tenho umas condições!
E vais ver que não custa nada.

Apenas peço uma promessa:
Carne nunca mais comerás.
Que os animais vivam em paz!
É só, nada mais me interessa."

O quê?! Minha alma está partida!
Eu gosto tanto de um bom bife... :\
Mas nada de armar em xerife,
ela está-me a salvar a vida...

Acedo. Ela faz-me sinal
e eu subo-lhe às cavalitas.
Voamos à luz de estrelitas
em viagem que não tem igual.

E por fim piso terra firme.
Meu deus... sensação mais sublime!
Até choro, pois comovi-me,
e com os nervos desato a rir-me.

"Mil thanks!... queres o meu telemóvel??"
"Nahhh, vá, deixa-te lá de tretas."
Despede-se entre piruetas
e vai-se... assisto imóvel.

"Pá, jamais 'squecerei o rosto
da minha linda salvadora...",
reflicto, de volta à Amadora,
enquanto trinco um entrecosto!
De 21 de Junho:

Desço a escadaria do sentimento. Dou por mim sozinho à beira do Rio da Passagem. Não há outra margem. Sento-me, cabelos ao vento, à espera q alguém se sente ao meu lado, fitando a paisagem inevitável. Por trás, magnanime, à espera do meu regresso, a Torre da Solidão, e os corvos q bailam em seu torno, jocosos.